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Crónicas de Santa Cruz

sinopse

O assunto imediato deste documentário é o trabalho. Em especial, o trabalho das mulheres: os gestos da Eduarda, as mãos da D. Alexandrina e da Rosa, a bonomia dos confrades das couves, Rosa ao balcão da Casa das Bifanas, o olhar de Antónia, o tempo no corpo feminino, mas também a resistência do Vasco e do Vinícius, o espírito renascentista do Sr. Moura, os sons aquáticos da Sé Velha, o espírito inquieto da associação cultural Prisma, a vanguarda de Paulo Eno, os grandes planos do Rui. Estes são os meus edifícios. O património arquitectónico que pretendo documentar através de um olhar preciso e demorado sobre cada uma destas personagens.
Soma-se à urgência de construir uma outra memória de cidade a enorme curiosidade de descobrir o que ela é hoje, pois aqueles locais e personagens concretizam o reencontro com a cidade em que nasci mas de onde estive fora 10 anos. São encontros fortuitos. Acasos poéticos. Derivas urbanas: um estudo psicogeográfico das cidades tal como afirmado por Debord.
Este é um filme sobre um regresso a casa. Um caminho feito de espanto, em que cada plano ora ilumina, ora reorganiza a minha memória, e o meu património de cidade. E deste modo, não só constrói uma certa identidade de Coimbra, como, retira, no futuro, aos poderes instituídos o monopólio que hoje detêm do discurso sobre o passado da cidade.
Este é também um filme que testa a possibilidade de fazer hoje cinema em Coimbra. Será possível filmar na periferia da periferia? E qual será o preço dessa impossibilidade? É um filme de resistência. Um filme militante num cinema realista. Luz natural, som direto que não se esgota numa intenção arquivística, mas que se assume como ato cultural reflexivo. Um austero realismo poético que com serenidade, olha a por vezes convulsiva, mas sempre inexorável passagem do tempo. Uma intenção estética que se concretiza desde logo num específico modo de fazer: relação pessoal com as personagens, a escolha precisa da objetiva e posição de câmara e no principio de montagem de que cada plano só existe, se nele estiver expressa uma transformação. Se entre os cortes, o plano transportar o devir que só o cinema consegue expressar. Trata-se de adequar as formas plásticas e sonoras ao acontecimento que resulta da ação do tempo sobre a matéria: modelação da luz, movimentação das personagens, a suspensão de um som...
Filme frágil que não usa o passado enquanto coisa estritamente real, mas apenas uma das representações que dele se pode fazer. Não tem um discurso interno, não propõe nenhuma tese. Esta, a existir, será o resultado natural do choque das imagens do filme, com a memória de cidade que cada espetador trás consigo. Na verdade, a justaposição dos planos, os raccords, os cortes; relacionam a imagem que está fora, e que vemos projetada no ecrã, e a imagem de cidade que está dentro, encarnada: o património de Coimbra que cada espetador convoca para a sala de cinema.

Crónicas de Santa Cruz

2014

61'

HD

Doc

Montagem: Tiago Cravidão
Correção de cor: Henrique Loff

Festivais

- Selecção Oficial: Figueira Filmart (2014)

Exibições

- Sala 2 Cinema Avenida (Estreia 2014)
- Cinemateca - Panorama (2015)
- Universidade do Minho (2015)

Financiamento

XVI Semana Cultural da Universidade de Coimbra

Apoios

Agradecimentos

Largo Filmes

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